terça-feira, 26 de agosto de 2008

summer


- A noite está tão bonita hoje – ela disse, sentando mais perto dele.

- Tem razão.

- Podia ser sempre assim.

- Como é possível ter tantas estrelas acima de nós, mesmo numa cidade tão desesperadamente poluída como esta?

Ela suspirou e emendou devagar, quase em sussurro, quase em oração – Milagres de uma noite de verão. Apenas isso. Milagres de uma noite de verão.

Ele aproveitou e ajeitou o seu ombro junto aos cabelos longos e lindos dela. Sentiu, feliz, o perfume deles invadir o seu nariz.

Ficaram em silêncio por alguns instantes. O tempo suficiente para sentir o céu se mover. Liquid Sky ou Rumble Fish? Como escolher? Ficaram em silêncio, tendo por testemunha apenas a viela escura da vila e os cacos de garrafas. Ao fundo, a soundtrack da festa do Cadu.

De repente, ele quebrou o silêncio, de forma doce e suave
- Você acredita mesmo em milagres de noites de verão?

Ela demorou para responder, como se não quisesse sair de uma espécie de transe.

- Acredita? – ele insistiu

- Talvez. Talvez sim, talvez não. Depende.

- Do quê? – ele perguntou, curioso.Ela levantou a cabeça e olhou para ele fixamente, sem nada dizer.

Ele tentou desviar o olhar, à sua maneira, porém não conseguiu. Ele nunca conseguia quando se tratava dela.

- O que foi? – ele perguntou, aflito com a forma do olhar dela.

- Milagres de noites de verão – ela disse, aproximando seus lábios doces dos dele, para um beijo de cinema, um beijo de desejo, um beijo há tanto contido. Um beijo simplesmente maravilhoso.

O mundo parou naquele instante.

Ao deitar, já alta madrugada, ele apenas fez uma prece silenciosa – Deus, faça com que nada mude – suspirou e desabou.


DEZESSEIS anos passados....


Na fila do caixa do Café da Esquina, ele sentiu uma mão pequena tocar o seu ombro. Um toque respeitoso, um toque suave, um toque breve.

Ao virar, mal acreditou.

Ela.

- Bete? Não creio – ele disse. Surpreso e tocado.

Ela sorriu e respondeu – Olá, querido. Que coisa boa te ver – disse, abraçando-o de um jeito incrivelmente adolescente, incrivelmente familiar. Mais do mesmo de sempre.

- Como você está? – ele perguntou.-

Bem. Estou bem. Você também, não? Bonitão - as usual - mesmo ainda fumando os seus Marlboros de menta – sorriu.

Ele deu risada antes de responder – Velhos hábitos. Velhos hábitos.

- Que ótimo te ver.

- Eu também acho.- Tanta coisa não, depois daquela noite na casa do Cadu, e tantas outras coisas? – ele disse - Tem um tempinho?

Ela olhou ao relógio – Sim. Cinco minutos, na verdade. Tenho uma reunião daqui a pouco e você sabe como o trânsito desta cidade é caótico, não?

Ele concordou com a cabeça, oferecendo uma cadeira para ela, ao lado da janela. Pediu dois capuccinos e começaram a falar e falar e falar.O que aconteceu depois?


Conversaram por mais que cinco minutos. Óbvio.

Ela atrasou para a reunião.

Ele atrasou para a volta ao trabalho.

Ela morava em Berlim.

Ele morava em São Paulo.

Ela, divorciada.

Ele, casado.Ela, sem filhos.

Ele, também.

Ela, feliz.

Ele, talvez.

Ela, com sonhos e delírios e vontades.

Ele, também.

Ela, adorável.

Ele, mal humorado.

Ela, mudada.

Ele, também.

Trocaram e-mails.

Trocaram celulares.

E foram embora,, cada um cada um...

Se encontrarão novamente?

Muito provavelmente não.

Entretanto, quem sabe quando acontecem os milagres em noites de verão?

Quem?

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